Mestre de Yoga Carlos Rui Ferreira

Melhor é possível

XIS: Quando é que fez esta opção de vida?

Carlos Rui: Em vez de um curso superior optei, primeiro, por uma alimentação diferente, mais vegetariana, e fiz em simultâneo um percurso que evoluiu pelas artes orientais como o Yoga e o Shiatsu.

XIS: Foi uma opção espiritual?

Carlos Rui: Não, foi puramente técnica. Estas artes têm sido muito deturpadas pelo misticismo e, por isso, apostei num percurso exclusivamente técnico.

XIS: Onde é que fez a sua formação?

Carlos Rui: Na Índia.

XIS: Foi fácil chegar aos mestres?

Carlos Rui: Não foi nada fácil, tive grandes dificuldades porque cheguei à Índia com um conjunto de moradas e verifiquei que era uma impossibilidade física encontrar-me com os grandes mestres que procurava.

XIS: Porquê?

Carlos Rui: Porque viviam nos extremos daquele país enorme. Um no sul, outro no centro e outro no norte. Foi difícil chegar até eles e foi complicado habituar-me ao clima da Índia, ao ritmo das pessoas, enfim a tudo.

XIS: Quais eram as indicações que levava?

Carlos Rui: As dos melhores mestres que eram e são os professores Iyengar, Satyananda e Pattabhi Jois.

XIS: Como é que soube da sua existência?

Carlos Rui: Através das leituras e dos contactos que fiz. Sabia que trabalhavam numa área exclusivamente técnica e prática que, como disse, era a que me interessava.

XIS: Como é que foi recebido pelos mestres?

Carlos Rui: Muito mal, como é da tradição. Os orientais são muito rígidos e quase que nos correm ao pontapé. Não nos passam cartão e não têm as mesmas regras das escolas ocidentais onde fazemos um exame de admissão, pagamos uma inscrição e temos acesso às aulas.

XIS: Qual é a ideia de maltratar um aprendiz?

Carlos Rui: É justamente a de desmotivar os curiosos e fazer uma selecção daqueles que estão verdadeiramente interessados em aprender.

XIS: Como é que foi consigo?

Carlos Rui: Esperei sentado durante dias seguidos até ter autorização para assistir às aulas.

XIS: Foi humilhante?

Carlos Rui: Não. É uma questão de respeito pela tradição indiana. Os verdadeiros mestres das artes orientais não têm paciência para aturar curiosos e têm que perceber se do nosso lado existe uma motivação forte e uma disponibilidade para aprender.

XIS: Aparentemente o seu processo de integração nem foi dos mais lentos.

Carlos Rui: Não, de facto. Hoje em dia cada um destes mestres tem uma lista de espera de 5 a 6 anos. Talvez eu tenha uma estrela da sorte.

XIS: Ou talvez seja uma pessoa determinada e persistente.

Carlos Rui: Acho que sim, que a persistência funcionou a meu favor.

XIS: Quanto tempo por ano passa na Índia?

Carlos Rui: Ao princípio eram seis meses lá e seis meses cá. Agora só consigo ir por períodos de dois meses. Não posso deixar as minhas coisas durante mais tempo.

XIS: Os praticantes de Yoga têm que fazer algum regime alimentar especial?

Carlos Rui: Não, cada um tem a sua opção particular e nunca fiz nenhuma tentativa para influenciar ninguém nesse campo. A minha escolha não é extensível aos outros. Só se eles quiserem.

XIS: Aos quarenta anos sente-se realizado com as suas escolhas?

Carlos Rui: Inteiramente. Sinto-me muito bem, ando sempre descontraído e feliz. Acho que tenho que ir ao médico pedir uns depressivos porque se calhar não faz bem andar sempre tão bem disposto!

XIS: Quais são os seus projectos de futuro?

Carlos Rui: Gostava de ter uma quinta exclusivamente ligada ao Yoga onde pudesse fazer workshops, férias, cursos intensivos, etc.

XIS: E mudava definitivamente para o campo?

Carlos Rui: Não! Continuava a ter o meu espaço em Lisboa mas fazia lá os cursos e os retiros fora da grande agitação da cidade.

XIS: É compensador sentir que os outros aproveitam os seus ensinamentos para se sentir melhor consigo próprios e com o mundo?

Carlos Rui: Muito compensador. Em geral as pessoas ficam com melhor qualidade de vida. Como não faço um Yoga de almofada e é até bastante contundente, as pessoas que frequentam os meus cursos são mais dinâmicas e melhoram incrivelmente a sua aptidão física.

XIS: Sente-as diferentes?

Carlos Rui: Ao fim de dois meses a mudança é notória. Ficam mais descontraídas, mais alegres, mais comunicativas e em melhor forma física.

XIS: A questão alimentar não faz parte desta mudança?

Carlos Rui: A higiene alimentar é um factor de qualidade de vida que melhora a condição física, a qualidade do repouso e, até, o humor. Somos capazes de ficar com uma relação mais aberta com o mundo à nossa volta mas é sempre uma opção pessoal. Nunca foi nem será imposta.

XIS: A sua tranquilidade e boa disposição são contagiantes. Não há nada capaz de lhe perturbar essa paz interior?

Carlos Rui: A má disposição não resolve nada, só serve para aumentar as toxinas internas, provocar alterações hormonais e químicas que mancham a limpeza interior. Não ajuda a resolver os problemas. Vivo em paz porque faço o que gosto, não devo nada a ninguém e tudo me dá prazer. Sou feliz assim.

Carlos Rui Ferreira, 41 anos, três filhos adolescentes, mestre de artes orientais e exímio praticante de Yoga, Carlos Rui também faz massagens de Shiatsu, dá cursos intensivos e faz formação nestas áreas. Em resumo, espalha os talentos e põe-nos a render. O lucro é todo nosso.

Por Maria Vaz Afonso



Facebook Comments Master

Share This

Share this post with your friends!