Quando a Alexandra me pediu para partilhar esta minha aventura, o Título não podia ser outro, pois seria algo que há alguns anos teria considerado como impossível, classificá-la-ia assim em quase todos os sentidos, mas acima de tudo pelo desafio de superação e esforço que representaria. Mas isso teria sido há alguns anos, não o foi Agora.

Sempre adorei o Trekking e as Montanhas, tendo nos últimos anos feito os Picos da Europa (2015) e a Ascensão do Toubkal (2017). Em todas estas aventuras a minha única preparação sempre foi exclusivamente o nosso Yoga, tendo também sido de assinalar, o desafio da Alexandra para começar as Práticas nas aulas de Intermédios em finais de 2015. Procurava principalmente nesta ocasião, conseguir cumprir com as 2 Práticas semanais, e agora mais recentemente reforçando/compensando em alguns períodos estas práticas para 3x/ semana. Tal aconteceu nos meses que antecederam o Kilimanjaro.

A ascensão do Kilimanjaro representou para mim 3 desafios muito repartidos no tempo e no espaço:

  1. Os primeiros dias até à noite da Ascensão
  2. A noite da Ascensão
  3. A descida

1) Os primeiros dias até à noite da Ascensão

Os primeiros 4/5 dias de caminhada inicial não representaram esforço físico extraordinário, dado que os trajectos eram percorridos principalmente de manhã, e portanto de fácil recuperação. O facto de transportarmos apenas o necessário para aquele período (~4/~5kg) também contribuiu. Neste aspecto, os 10/11 kg que transportávamos às costas nos Picos da Europa (durante uma semana e quase 60km) eram diariamente extenuantes.

Recordo bem a reacção da Alexandra e da Paula, quando no regresso, viram os meus pés… e unhas.

Neste período, e também em virtude de estarmos sempre a subir numa paisagem árida, mas muito intensa, e a uma altitude naturalmente crescente, toda a consciência de uma respiração profunda foi fundamental, em particular acima dos 3.000m.

Um workshop de um Fim de semana em 2016 (também como preparação do Toubkal e depois em 2017) foram fundamentais. Os meus pulmões literalmente nunca mais foram os mesmos.

O controlo mental durante estes primeiros dias e noites, sentindo a proximidade do dia da ascensão Final era também crescente. Quando no dia anterior à ascensão tivemos consciência, pelo Guia, das taxas médias de sucesso de atingimento (~75%), e das fatalidades (~15 por ano) tivemos um choque com a realidade. Um choque com a possibilidade de falhar. A Forma física em altitude tem efectivamente muitas variáveis.

Felizmente acabei por, nesta primeira fase, não ter experimentado qualquer incómodo e estava portanto bastante confiante, acima de tudo pela consciência de achar que tinha feito tudo. Aqui reconheço o papel motivador e exigente da Alexandra, tanto naquelas aulas em que me sentia totalmente confiante e tudo acontecia quase sem esforço, como naquelas em que me sentia um iniciado com a pulsação a 140.

2) A noite da Ascensão

Nesse dia deitámo-nos nas nossas tendas de 2, cerca das 18h para acordarmos ~22h, comermos algo rápido, e começarmos a ascensão cerca das 23h, tendo como objectivo chegarmos ao Pico ás 8-8:30 com o nascer do Sol.

A esta altitude, a neve já era uma presença constante, pelo que o uso de Crampons (peça metálica de tração para a neve, com picos) foi fundamental.

O Ritmo era obrigatoriamente lento, a altitude, a inclinação, a neve. “Poli Poli” (expressão Suaíli para “Devagar”) era recorrentemente recordada pelos Guias (eram 3 Guias, como éramos 5, garantiam assim a máxima segurança, e a eventualidade de algum de nós ter de descer…).

Todo o caminho efectuado em fila indiana, com paragens de breves minutos pelo frio intenso, água a congelar nos cantis, quase sem trocarmos palavra.

As primeiras horas foram para mim, sem dúvida, as mais importantes, pois acabaram por marcar toda a ascensão. Isto em virtude de uma decisão que tomei, também directamente relacionada com o nosso Yoga, e na ajuda que me deu na recuperação das minhas Costas/Cervical.

Nesta ocasião tomei consciência da importância da Postura durante estas 9h, procurando assumir uma postura o mais vertical possível, pelo que pedi ao Guia para não usar logo bastões. Ele anuiu e acabou por me deixar percorrer uma boa parte do trajeto mais exigente, completamente direito, com as mãos atrás das costas e as omoplatas em tração, ajudadas também pela mochila com uns 4 kg.

Quando se recordou de me avisar para usar os Bastões, já tinham passado bem mais de 4h da ascensão, efectuadas quase sem sentir esforço especial, e a conseguir, volta e meia, olhar as estrelas, e ouvir… Ludovico Einaudi nos Phones. Estava de alguma forma também hipnotizado.

As últimas horas, com o dia já a começar a clarear foram mágicas, e claramente com a adrenalina já a bombar por saber que ia conseguir.

A chegada ao Pico foi uma explosão de sensações e sentimentos, potenciados pelo facto de não ter sentido qualquer desconforto, pelo esforço ou altitude.

Fixar lá o Logo do CPYOGA foi, portanto, um misto de agradecimento pelo que as práticas assíduas me têm permitido, mas acima de tudo de continuidade. O melhor ainda está para vir 😉

3) A descida

O percurso de regresso foi também marcante e emocionante, já com pleno Céu azul. Tivemos nestas primeiras 2-3 horas uma verdadeira noção da paisagem incrível que nos rodeava… Cratera e Glaciar a 5000m de altitude…. desfiladeiros a perder de vista …mas também do potencial risco fatal de uma eventual queda. Aqui os Bastões juntamente com os Crampons, foram fundamentais.

Neste período, estava também claramente ainda a usufruir da forma como havia decorrido a ascensão, em que de alguma forma me havia poupado. Foi um dia bem longo com um total de 14/15h de caminhada (9h subida e 6h de descida). Primeiro subindo dos 4730m até aos 5985 m, para descer depois até aos 3705m.

O último dia correspondeu a 5/6h ,cerca de 20km sempre a descer… dos 3705m aos 1860m.

Foi uma aventura incrível com cerca de 80km percorridos e que terminou com uns dias em Zanzibar.
Uma aventura marcante por todos os Processos envolvidos. Incluindo as nossas práticas. A preparação, a antecipação e o incrível Grupo de amigos que me acompanhou.

Beijos e Abraços
João

Setembro 24, 2018 Histórias


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