Arte Milenar

O “boom” do yoga

São cada vez mais os adeptos desta prática milenar que “vicia” quem a ela se entrega de corpo e alma. Os benefícios, esses, são muitos e a vários níveis.

Nos últimos anos, o yoga tem sido procurado por um número crescente de pessoas, de quase todas as idades, de todas as profissões. Será uma questão de moda, de marketing e de publicidade ou nem (sempre) por isso?

Independentemente das razões, a verdade é que esta arte adquiriu um interesse renovado no Ocidente, o que não é de estranhar se observarmos a sociedade actual, extremamente agressiva, competitiva e acelerada, exigindo sempre mais e mais, afastando-nos inexoravelmente da nossa essência, comprometendo a nossa saúde e bem-estar. E nestas condições, os “nervos” dão de si, a doença começa a comprometer a nossa qualidade de vida e torna- se deveras difícil mantermo-nos equilibrados. Por isso, a procura crescente por práticas, como o yoga ou o tai chi chuan, que de algum modo nos permitem restabelecer o equilíbrio, manter o corpo são e fortalecer o sistema nervoso mesmo no meio de todas as tensões do quotidiano.

“A estrutura da sociedade – diz-nos Carlos Rui, apaixonado por esta prática milenar desde adolescente – leva a que as pessoas necessitem de procurar meios de equilíbrio, que transcendam a mecanização e a informatização, e as leve a estar com elas próprias.

No fundo, o yoga é uma ponte para a interioridade, permite às pessoas irem um pouco mais para dentro de si próprias e assim estabelecerem os links com a sua essência, mantendo o equilíbrio num mundo extremamente apelativo para o que está fora e que vive principalmente do acessório e do transitório. E se o indivíduo não está de alguma forma centrado em si próprio sente um grande vazio, está sempre com grande insatisfação e, sobretudo, insegurança.

O yoga conduz as pessoas para dentro, o que não significa necessariamente que elas tenham mais segurança em si, mas pelo menos vivem dentro de fronteiras com as quais se pode lidar de forma menos efémera. Por isso este boom do yoga, que é um fenómeno típico das grandes urbes e que ainda está em expansão.

Nos Estados Unidos existem grandes centros com dois e três andares, várias aulas, toda a gente a praticar, mas está a atingir o pico e começa a decair.

Na Europa, pelo contrário, começa a ter um impacto maior como reflexo principalmente do que se passa na América.

Penso que estamos de facto a crescer, embora nalguns países o crescimento possa ser mais avassalador por uma questão de moda.

Verifica-se, por exemplo, um crescendo de anúncios, como os iogurtes, relacionados de algum modo com a saúde, que de uma forma ou de outra mostram pessoas numas posturas que lembram o yoga ou o tal chi. Há, portanto, uma certa tendência do actual mercado para divulgar estas práticas.”

Para além da moda

As pessoas podem, de facto, iniciar-se no yoga por moda, devido ao marketing e à publicidade. Mas, porque se mantêm e muitas até se “viciam” nesta arte, não dispensando nem por nada a sua prática? Caia chuva, faça um calor de morte, haja trânsito, haja greves, vêm de perto, vêm de longe… mas ali estão elas de pedra e cal, pelo menos neste centro onde Carlos Rui transmite o seu saber, aprendido na índia, o berço deste conhecimento, codificado e sistematizado pelo pensador hindu Patañjali, 2500 anos antes de Cristo, no texto Yoga Sutras. O director do Centro Português de Yoga, rindo-se, confirma: Aqui, as pessoas não chegam bem por moda.

Os praticantes que cá estão é que normalmente devem apresentar sintomas de boa saúde, boa disposição e bem-estar. Não é que, também, tenham mais ou menos êxito do que os outros, mas possivelmente conseguem lidar com as adversidades normais da vida quotidiana, seja a nível profissional, pessoal ou emocional, de uma forma mais tranquila, e sem darem por isso.

A prática vai gradualmente conduzindo a que as pessoas tenham uma maior tranquilidade, sejam mais flexíveis e não se envolvam tão facilmente nas situações, e isso gera uma certa serenidade e bem-estar que se transmite ao seu círculo de relações. Por isso, quem chega ao nosso centro vem geralmente aconselhada por amigos e já sabe que não vem para um yoga de visualização, mas para um trabalho um bocado duro e agreste.

Não vem para aqui dormir. Já está preparado para algum ‘sacrifício’, que é apenas inicial, e que rapidamente traz inúmeros benefícios a nível da saúde física, psíquica e emocional. Neste centro faz-se o que “de uma forma limitativa e restritiva” se considera no Ocidente Hatha Yoga, seguindo-se, sem fanatismos, as linhas de treino do Iyengar Yoga (professor de renome mundial, aluno de Krishnamacharya nos anos 30, do século passado) e o Vinyasa do Asthanga Yoga, de Pattabhi Jois, outro mestre reconhecido.

Múltiplos benefícios

Toda a abordagem do yoga, refere Carlos Rui, está feita para actuar profundamente sobre os órgãos internos e sistemas inerentes a estes, produzindo uma maior saúde a nível orgânico.

“Essa acção, pelo uso consciente dos músculos e das articulações, provoca compressões, pressões e distensões na zona abdominal e torácica que produzem uma massagem e uma regularização dos órgãos internos e das suas funções, gerando saúde e bem-estar.

Também se reflecte a nível da saúde das articulações, de um maior controlo muscular e articular, e numa figura estética que se torna mais apelativa e agradável.

A pessoa, dentro da sua constituição física, fica mais equilibrada, com formas mais apropriadas à sua estrutura óssea, sem excessos para mais, nem para menos.

E os músculos também ficam mais trabalhados, com mais flexibilidade. A nível orgânico e físico há, portanto, uma melhoria objectiva e clara.

“E como a estrutura física não está separada da emocional nem da mente, também a estes níveis os efeitos se fazem sentir.”

A nossa mente e a nossa capacidade de nos relacionarmos com o mundo torna-se mais clara, as pessoas conseguem ver o que é fundamental e o que se revela acessório na sua vida com mais objectividade e clareza, o que também se reflecte no seu emocional.

Há muitos medos que têm que ver também com uma relação que temos com o corpo muito inconsciente e muito deficiente. Ora, quando começamos a relacionar-nos com o corpo de uma forma mais segura e dinâmica, interagimos connosco com maior consciência, e isso também tem repercussões a nível emocional e na actividade mental.

Noto que os praticantes regulares são pessoas mais descontraídas, mais abertas ao diálogo, mais tolerantes e menos preconceituosas.”

De ginástica tem pouco

Só aparentemente é que uma aula de yoga parece uma sessão de ginástica, com saltos para a frente e para trás, exercícios de flexibilidade ou de coordenação motora.

Existem diferenças muito grandes entre ambas, começando pelo facto de os ásanas (posturas físicas) obedecerem a critérios de alinhamento corporal, sempre sincronizados com a respiração.

“Há consciência sobre a respiração e o movimento”, explica Carlos Rui.”0 praticante de yoga, embora se movimente de forma vigorosa e dinâmica, mantém-se sempre focalizado no que está afazer, respira controlada, lenta e profundamente e o movimento vai seguindo o fluxo natural e consciente da respiração, o que não se passa na actividade gímnica.

Além disso, o objectivo desta também não é actuar sobre os órgãos internos, sistema nervoso central e glândulas endócrinas, ao contrário do yoga que usa a movimentação física, os braços e as pernas para agir profundamente sobre aqueles.

“São práticas tradicionais dentro do yoga os ásanas (que desenvolvem também a coordenação motora, a flexibilidade e a resistência das articulações, tendões, ligamentos e músculos), os pránáyámas (exercícios respiratórios que desenvolvem um maior domínio sobre as emoções e sistema nervoso), o yoganidra (exercícios que conduzem a uma descontracção profunda, libertando o corpo e a mente de tensões) e o dhyana (exercícios de meditação, que desenvolvem a intuição, a concentração, a memória e que também tranquilizam a mente).

Existem diferenças muito grandes entre o yoga e a ginástica

Vários caminhos, o mesmo objectivo

O yoga dispõe de variados caminhos, permitindo a cada pessoa encontrar a técnica precisa que melhor corresponda ao seu temperamento, ao seu psiquismo e à sua personalidade.

O praticante descobre e segue o seu próprio caminho, pouco importando o lugar geográfico onde se encontre, se na Índia, se na Europa, ou se a técnica escolhida é o yoga da devoção (Bhakti), da acção desinteressada (Karma), da força e harmonia do corpo (Hatha) ou do conhecimento (Jñana).

Qualquer destas variantes é válida se nos ajuda a ser nós mesmos, a descobrir o nosso ser interior e “a alcançar a libertação (o estado descondicionado da mente)”, o objectivo último do yoga.



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