Série Mulher no Yoga · Artigo 2
Há mulheres que descrevem esta fase de uma forma muito simples:
“Eu conhecia o meu corpo. Agora já não sei muito bem o que esperar dele.”
Durante anos, o ciclo pode ter sido relativamente previsível. Mas chega uma altura em que começa a mudar. Uma menstruação vem mais cedo, outra atrasa-se, o fluxo altera-se, o sono pode piorar, e os níveis de energia já não parecem os mesmos.
É muitas vezes assim, sem uma fronteira clara, que começa a perimenopausa.
Mas procurar compreender esta fase não é apenas tentar perceber o que acontece às hormonas. É também aprendermos a viver numa fase da nossa vida em que o corpo pode tornar-se muito menos previsível.
A perimenopausa é uma transição, não uma data
Não existe uma idade exata em que a perimenopausa começa.
Durante esta fase, a função ovárica vai-se modificando e as oscilações hormonais podem tornar-se mais acentuadas. Para algumas mulheres, a primeira mudança evidente é o ciclo menstrual. Para outras, podem surgir primeiro alterações do sono, afrontamentos, mudanças de humor ou dificuldades de concentração.
E algumas atravessam grande parte desta transição sem sintomas particularmente incómodos.
Por isso, duas mulheres da mesma idade podem ter experiências muito diferentes. E esta variabilidade é uma das características importantes da perimenopausa.
Nem tudo o que muda significa que existe um problema
Quando o corpo deixa de responder como estamos habituadas, é natural procurarmos uma explicação. E, hoje em dia, uma das primeiras que nos ocorre é quase sempre: “São as hormonas.”
É verdade que as alterações hormonais fazem parte da perimenopausa. Mas isso não significa que o organismo esteja simplesmente “desequilibrado” ou que precise de regressar ao estado anterior.
A perimenopausa é uma transição fisiológica, marcada por alterações naturais na actividade hormonal e por diferentes formas de adaptação do organismo.
E reconhecermos isto não significa, de forma alguma, que estamos a desvalorizar os sintomas.
Algumas mulheres passam por alterações significativas do sono, afrontamentos, mudanças de humor, hemorragias ou outros sintomas que podem justificar avaliação, acompanhamento e tratamento médico.
O importante é distinguir entre uma alteração fisiológica e um problema de saúde que necessita de atenção. Nem tudo o que muda durante a perimenopausa é sinal de que alguma coisa está “avariada” em nós.
A perimenopausa faz parte do percurso de toda uma vida
Há também um risco em explicar tudo através das hormonas.
Entre os 40 e os 60 anos podem estar a acontecer mudanças profundas na nossa vida, para além destas mudanças fisiológicas internas.
Os filhos tornam-se independentes, os nossos pais podem começar a precisar de mais cuidados, podemos pôr em questão a nossa carreira, as relações vão mudando e a sexualidade também.
Podemos sentir que temos mais liberdade ou, pelo contrário, mais responsabilidades que nos condicionam.
E é neste contexto que pode surgir uma nova questão:
Como é que eu quero viver os próximos vinte ou trinta anos?
Não estamos a falar de hormonas, mas tudo acontece neste nosso corpo.
Por isso, cansaço, irritabilidade, ansiedade ou falta de concentração não devem ser automaticamente atribuídos a uma única causa.
A perimenopausa faz parte do percurso de toda uma vida, e não são apenas as hormonas que nos influenciam.
O que pode o Ayurveda acrescentar?
O Ayurveda não possui uma versão antiga da endocrinologia e não devemos transformar conceitos tradicionais em equivalentes hormonais.
Uma das suas contribuições mais interessantes é o Ayurveda olhar para as diferentes fases da vida como períodos em que as necessidades do organismo se modificam.
Se procuramos apenas eliminar sintomas, sem perceber o que está por trás, provavelmente não conseguimos o que desejamos.
Assim, nesta fase, talvez seja mais adequado procurar perceber:
“O que está a mudar em mim e do que é que eu preciso agora?”
É aqui que entram dois conceitos do Ayurveda que nos ajudam a responder a esta pergunta:
- Laṅghana refere-se, de forma geral, a reduzir ou aliviar aquilo que, num determinado momento, pode estar em excesso ou a sobrecarregar o organismo.
- Bṛṃhaṇa está relacionado com nutrir, construir e sustentar aquilo que precisa de ser preservado, recuperado ou fortalecido.
O que importa aqui não são as palavras em sânscrito, mas perceber que nem todas as fases da vida nos pedem a mesma forma de cuidarmos do nosso organismo.
Há momentos em que pode ser necessário reduzir exigências, excessos ou sobrecargas — por exemplo, quando estamos a exigir demasiado do corpo e a acumular fadiga. Noutros, torna-se mais importante preservar recursos, recuperar e sustentar o organismo, dando maior atenção ao descanso, à alimentação, à recuperação e àquilo que nos ajuda a manter a força e a vitalidade.
A ideia não é que uma estratégia seja melhor do que a outra, mas perceber que as necessidades podem mudar e que a forma de cuidarmos do nosso organismo também pode precisar de mudar.
Envelhecer não é tentar permanecer jovem
Outro conceito ayurvédico importante é rasāyana, traduzido muitas vezes hoje em dia, e de forma sintética, por “rejuvenescimento”.
Mas talvez seja mais útil relacioná-lo com vitalidade, adaptação e longevidade, uma vez que não é uma tentativa de impedir o envelhecimento.
Todos os seres, num percurso normal de vida, vão envelhecer.
Portanto, a questão não é: “Como é que faço para não envelhecer?”
É sim: “Como é que eu quero envelhecer?”
E, em princípio, todos desejamos envelhecer com autonomia, com capacidade para nos movimentarmos, com energia para fazer aquilo que valorizamos, com relações significativas e importantes para o nosso bem-estar e com uma prática de yoga que continue a fazer sentido.
Esta mudança de perspetiva é particularmente importante numa fase em que o corpo já não responde exatamente como antes.
Como o Yoga pode ajudar
Na prática de yoga, quando uma mulher começa a sentir que o corpo está diferente, é natural que se comece a questionar e procure respostas concretas:
“Que posturas devo fazer?”
“Que prática é melhor nesta fase?”
Podemos, claro, adaptar uma prática a objetivos e necessidades específicas.
Mas talvez uma das contribuições mais importantes do Yoga seja:
Aprender a observar.
E este factor vem muito antes de qualquer postura ou sequência mais específica que possamos organizar para determinada mulher.
Observar que:
- a respiração não está sempre igual;
- a energia varia de dia para dia;
- a mobilidade, flexibilidade, concentração e a capacidade de recuperação também não são as mesmas todos os dias.
E assim, perceber estas diferenças pode tornar-se particularmente útil numa fase que é menos previsível.
Mas atenção: observar não significa começar a diagnosticar permanentemente cada sensação, à procura de uma explicação para tudo o que acontece.
Por exemplo, uma noite mal dormida, stress, excesso de trabalho, uma doença ou simplesmente um dia difícil também alteram a forma como nos sentimos.
Por isso, o objetivo nesta fase da perimenopausa não é tentar explicar tudo através das hormonas, das alterações hormonais.
É procurar observar e perceber os padrões que surgem.
“Ouvir o corpo” também exige discernimento
No Yoga dizemos muitas vezes: “Escuta o teu corpo.”
Mas isso não significa fazer sempre aquilo que nos apetece.
Às vezes estamos cansadas e precisamos realmente de parar e recuperar. Noutras vezes, estamos apenas sem vontade, e aquilo de que precisamos é de nos movimentarmos e de fazer uma boa prática de Yoga.
Da mesma forma, se numa postura sentimos dor — sobretudo uma dor aguda, que pode ser um sinal de que estamos a exigir demasiado ao corpo ou de que algo não está bem — talvez o mais sensato seja parar ou modificar a postura, em vez de forçar e tentar ir mais além.
Noutras situações, porém, podemos sentir apenas o desconforto próprio de um desafio: a intensidade do esforço, a sensação de alongamento ou a dificuldade de permanecer numa determinada posição. Aprender a distinguir estas sensações leva tempo e exige atenção e disponibilidade, até se tornar uma verdadeira competência para escutar o corpo.
No Yoga poderíamos relacioná-la, num sentido amplo, com viveka: discernimento.
Talvez este discernimento seja mais útil nesta fase do que qualquer sequência universal “para a perimenopausa”.
Nem doença, nem experiência espiritual obrigatória
Durante muito tempo, a perimenopausa e a menopausa foram apresentadas sobretudo como o início do declínio da mulher.
Hoje, felizmente, já existe uma tentativa positiva de mudar esta narrativa. No entanto, também não precisamos de ir para o polo oposto e transformar esta fase numa experiência obrigatoriamente libertadora ou espiritual.
Embora algumas mulheres se sintam muito bem, para outras a sensação de que estão a perder algo é evidente. Umas ficam felizes por finalmente deixarem de menstruar, enquanto outras enfrentam sintomas que afectam e alteram profundamente a sua qualidade de vida.
Não existe, assim, uma experiência que seja a mais correta ou igual para todas.
Podemos, sim, reconhecer que a perimenopausa e a menopausa são transições naturais na vida de uma mulher, sem as transformarmos nem numa doença nem numa espécie de iniciação espiritual.
Quando é importante procurar avaliação
É normal que o ciclo menstrual se altere durante a perimenopausa, mas qualquer sangramento fora do padrão habitual deve ser avaliado e não simplesmente atribuído à perimenopausa.
Perdas de sangue entre menstruações, a seguir às relações sexuais ou depois de já terem passado doze meses sem menstruar devem ser avaliadas por um profissional competente.
O mesmo se aplica a sintomas que estejam a afectar significativamente a qualidade de vida ou que suscitem preocupação.
O Yoga e o Ayurveda podem contribuir positivamente para a forma como uma mulher cuida de si, mas não substituem uma avaliação médica quando ela é necessária.
Conclusão
Talvez uma das maiores dificuldades da perimenopausa seja esta: durante anos, conhecemos o nosso corpo porque fomos aprendendo a perceber como ele reage, como se comporta e, de forma aproximada, o que podemos esperar dele.
Depois, na perimenopausa, algumas dessas referências começam a alterar-se.
A primeira reação pode ser tentar recuperar a nossa versão anterior. Mas, como vimos, talvez exista outra possibilidade: continuar a cuidar do corpo sem exigir que ele permaneça igual e continuar a praticar sem transformar cada alteração que sentimos em algo que falhou.
Através da auto-observação, podemos aprender a perceber do que precisamos agora — o que, provavelmente, não será aquilo de que precisávamos há quinze anos.
E é nesta altura que podemos deixar de nos preocupar com a questão: «Como faço para voltar ao que era?»
E passar a perguntar: «Como posso continuar a viver bem enquanto o meu corpo vai mudando?»
É precisamente aí que o Yoga e o Ayurveda podem ter algo importante para nos oferecer: não impedir a transição, mas ajudar-nos a atravessá-la com mais atenção, discernimento e autonomia.
Experimentar uma aula de Yoga
Para começar ou retomar a prática com acompanhamento, pode marcar uma aula experimental de Hatha Yoga nos centros CPYOGA de Lisboa, Braga e Santo Tirso.
Artigo anterior da série: Depois dos 40, o corpo muda. E a prática de Yoga?
Para ler também: Os benefícios do Hatha Yoga na menopausa.