Yoga Sūtra I.16 — Para-vairāgya: O Desapego que Nasce do Conhecimento de Puruṣa

Depois de definir o Yoga como a cessação das modificações da mente (citta-vṛtti-nirodha) e de apresentar a prática persistente (abhyāsa) e o desapego (vairāgya) como os meios fundamentais para esse fim, Patañjali introduz um dos temas centrais de toda a obra: o samādhi.

Nos sūtras I.17 e I.18, são descritas duas modalidades fundamentais de absorção meditativa: o samprajñāta samādhi e o asamprajñāta samādhi.

A distinção entre ambos é de enorme importância porque esclarece a natureza do caminho do Yoga. O objectivo não consiste em produzir estados emocionais especiais, êxtases religiosos ou experiências místicas extraordinárias. O que está em causa é o progressivo refinamento da actividade mental, tornando possível discernir com clareza aquilo que pertence à mente e aquilo que pertence à consciência pura.

Através deste processo, o praticante aproxima-se gradualmente daquilo que constitui o verdadeiro objectivo do Yoga: a discriminação rigorosa entre Puruṣa, a consciência, e Prakṛti, a natureza.

I.17 — Samprajñāta Samādhi

O texto e a tradução

vitarka-vicāra-ānanda-asmitā-rūpānugamāt samprajñātaḥ

  • vitarka — raciocínio discursivo
  • vicāra — contemplação subtil
  • ānanda — satisfação serena, quietude prazerosa
  • asmitā — senso do eu, consciência de individualidade
  • rūpānugamāt — acompanhado por essas formas
  • samprajñātaḥ — samādhi com conhecimento

Tradução

“O samādhi com conhecimento (Samprajñāta) acompanha-se de raciocínio, contemplação subtil, satisfação serena e consciência de individualidade.”

O termo samprajñāta designa um estado de absorção em que permanece um objecto de conhecimento claramente presente à consciência.

A mente encontra-se estável, unificada e profundamente concentrada, mas continua a operar através de um suporte cognitivo. Existe conhecimento do objecto, ainda que esse objecto se torne progressivamente mais subtil.

Por essa razão, este samādhi continua a pertencer ao domínio de Prakṛti. A actividade mental encontra-se extraordinariamente refinada, mas ainda não cessou completamente.

Os quatro termos apresentados por Patañjali não devem ser entendidos como etapas rígidas e obrigatórias de uma sequência cronológica. Os comentadores clássicos interpretam-nos sobretudo como diferentes modalidades de absorção, associadas a graus crescentes de subtileza do objecto de concentração.

Vitarka — absorção sobre objectos grosseiros

O primeiro nível está associado aos objectos mais facilmente apreendidos pela mente.

A atenção pode concentrar-se sobre a respiração, um mantra, uma imagem, uma forma, uma estrutura corporal ou qualquer outro objecto claramente definido.

A mente continua a operar através de processos cognitivos relativamente evidentes. Ainda existe uma relação entre nome, significado e conhecimento do objecto.

Contudo, a dispersão habitual dos pensamentos diminui drasticamente. A atenção deixa de oscilar continuamente entre múltiplos estímulos e aproxima-se do estado de unidireccionalidade mental (ekāgratā).

Vicāra — absorção sobre objectos subtis

Em vicāra, a atenção deixa os objectos mais grosseiros e dirige-se para realidades mais subtis.

Segundo a perspectiva do Sāṃkhya-Yoga, a investigação meditativa pode agora incidir sobre os princípios internos da cognição, sobre os elementos subtis (tanmātras) ou sobre as próprias estruturas constitutivas da mente. Este refinamento aprofunda a compreensão das modificações da mente (vṛttis), anteriormente descritas por Patañjali.

O praticante começa a observar aquilo que normalmente permanece oculto pela actividade mental habitual.

Esta fase possui particular relevância porque revela um aspecto central da filosofia do Yoga: mesmo os processos mais refinados da inteligência continuam a pertencer a Prakṛti.

A subtileza não transforma a mente em consciência.

Ānanda — a serenidade produzida pela predominância de sattva

O terceiro modo de absorção é designado por ānanda.

Este termo é frequentemente mal interpretado. Não se refere a felicidade emocional, entusiasmo psicológico ou êxtase espiritual.

Segundo os comentadores clássicos, trata-se da serenidade que surge quando a mente se torna predominantemente sáttvica.

À medida que diminuem:

  • a agitação de rajas;
  • a inércia de tamas;

a mente torna-se mais transparente, estável e luminosa.

Dessa condição resulta uma sensação de tranquilidade profunda.

Contudo, esta serenidade continua a ser um fenómeno mental. Embora extremamente refinada, permanece dentro do domínio de Prakṛti.

Asmitā — a individualidade cognitiva mais subtil

O quarto nível é asmitā.

Também aqui é necessária alguma precisão.

Asmitā não corresponde ao ego psicológico comum nem às identificações pessoais que normalmente associamos à ideia de «eu».

Nesse estágio, a absorção apoia-se na própria faculdade cognitiva purificada (buddhi-sattva). Permanece apenas a forma mais subtil de individualidade cognitiva.

A actividade mental objectiva praticamente desapareceu. Contudo, ainda subsiste um princípio cognitivo que serve de suporte à absorção.

A proximidade de Puruṣa torna-se extremamente evidente, mas ainda existe um reflexo da consciência na mente.

Por mais subtil que seja esse reflexo, continua a existir uma distinção entre aquele que observa e aquilo que é observado.

Por essa razão, também este estado permanece dentro dos limites de Prakṛti.

O valor do Samprajñāta Samādhi

À medida que a mente se torna mais subtil, não ocorre uma fusão entre consciência e natureza.

O processo conduz precisamente ao contrário.

O praticante começa a distinguir com crescente clareza:

  • aquilo que é observado (dṛśya);
  • aquele que observa (draṣṭṛ).

O samādhi não tem como finalidade produzir estados extraordinários de consciência.

A sua função é tornar possível o discernimento (viveka).

Quanto mais refinada se torna a mente, mais evidente se torna que todos os objectos observáveis — mesmo os mais subtis — pertencem ao domínio de Prakṛti. Este discernimento aprofunda aquilo que Patañjali começou por definir no Yoga Sūtra I.2, onde o Yoga é apresentado como a cessação das modificações da mente.

I.18 — Asamprajñāta Samādhi

O texto e a tradução

virāma-pratyayābhyāsa-pūrvaḥ saṃskāra-śeṣo ’nyaḥ

  • virāma — cessação
  • pratyaya — impressão mental
  • abhyāsa — prática
  • pūrvaḥ — precedido por
  • saṃskāra — impressão latente
  • śeṣaḥ — resto
  • anyaḥ — outro

Tradução

“O outro samādhi (asamprajñāta), precedido pela prática de cessação dos conteúdos mentais, permanece apenas como traço latente de impressões (os saṃskāras).”

Ao utilizar a expressão anyaḥ — «o outro» — Patañjali assinala uma diferença fundamental relativamente ao estado anterior.

Já não estamos perante uma absorção baseada num objecto de conhecimento.

A cessação da actividade mental manifesta

Em samprajñāta samādhi existe sempre algum suporte cognitivo.

Em asamprajñāta samādhi, esse suporte desaparece.

A mente deixa de produzir conteúdos cognitivos manifestos.

Não se trata de sono, inconsciência ou apagamento mental.

O Yoga clássico não descreve um estado de ausência de consciência, mas sim a suspensão da actividade mental observável.

As modificações mentais deixam de se manifestar.

Virāma-pratyaya

Patañjali afirma que este estado é precedido por virāma-pratyaya-abhyāsa, a prática continuada da cessação.

A mente deixa gradualmente de alimentar:

  • imagens;
  • conceitos;
  • associações;
  • construções mentais.

O hábito constante de produzir objectos mentais começa a enfraquecer.

Este aspecto é particularmente importante.

O Yoga não procura substituir certos pensamentos por outros considerados melhores. O objectivo consiste em compreender e interromper o próprio mecanismo de produção contínua das vṛttis.

O papel dos saṃskāras

Apesar da cessação dos conteúdos mentais manifestos, algo permanece.

O sūtra afirma explicitamente que subsistem os saṃskāras, cuja compreensão é aprofundada quando se estuda a memória (smṛti-vṛtti) e o modo como as impressões permanecem latentes na mente.

Os saṃskāras são impressões latentes acumuladas ao longo da experiência. Constituem tendências potenciais que permanecem na estrutura da mente mesmo quando a actividade mental se encontra suspensa.

Por essa razão, este estado ainda não representa a libertação final.

Enquanto existirem saṃskāras, existe a possibilidade de reaparecimento dos vṛttis.

Asamprajñāta e Nirbīja Samādhi

É frequente encontrar a afirmação de que asamprajñāta samādhi e nirbīja samādhi são exactamente a mesma coisa.

Os comentadores clássicos apresentam uma visão mais cuidadosa.

Asamprajñāta samādhi constitui a base a partir da qual o nirbīja samādhi se torna possível.

Contudo, a simples cessação dos vṛttis não implica ainda a completa destruição dos saṃskāras.

Enquanto subsistirem sementes latentes (bīja), permanece a possibilidade de manifestação futura da actividade mental.

O verdadeiro nirbīja samādhi corresponde ao desaparecimento completo dessa causalidade psíquica.

A importância prática destes dois sūtras

Os sūtras I.17 e I.18 descrevem o refinamento progressivo da mente até aos seus limites mais extremos.

Primeiro, a actividade mental torna-se cada vez mais subtil através do samprajñāta samādhi.

Depois, em asamprajñāta samādhi, cessam as operações mentais manifestas, permanecendo apenas os traços latentes que sustentam a continuidade potencial da mente.

Este processo não deve ser entendido como uma busca de experiências extraordinárias.

Trata-se de um método rigoroso de observação e discriminação.

Através dele, o praticante aprende a reconhecer que tudo aquilo que pode ser observado — sensações, pensamentos, emoções, conceitos, estados meditativos e até as formas mais subtis da inteligência — pertence sempre ao domínio de Prakṛti.

Conclusão

Os sūtras I.17 e I.18 apresentam dois graus fundamentais de samādhi e descrevem o progressivo silenciamento da actividade mental.

Em samprajñāta samādhi, a mente permanece activa, mas cada vez mais refinada e transparente. Em asamprajñāta samādhi, cessam os conteúdos mentais manifestos, embora subsistam os saṃskāras que mantêm a possibilidade de novo surgimento dos vṛttis.

Em nenhum destes estados ocorre ainda a libertação final.

O valor do samādhi reside na sua capacidade de tornar evidente uma distinção essencial: tudo aquilo que pode ser conhecido pertence a Prakṛti; aquilo que conhece é Puruṣa.

Depois de estabelecer a natureza do Yoga no Yoga Sūtra I.2, explicar as cinco modificações da mente (vṛttis), aprofundar a memória (smṛti-vṛtti), apresentar abhyāsa, vairāgya e o para-vairāgya, Patañjali conduz agora o praticante à compreensão dos estados de samādhi que tornam possível reconhecer com crescente clareza a distinção entre Puruṣa e Prakṛti. O refinamento da mente não constitui o objectivo final do Yoga, mas o meio pelo qual essa discriminação se torna plenamente evidente.

Yoga Sūtra de Patañjali — Temporada 1

Glossário de Termos em Sânscrito

Abhyāsa

prática constante

Anuśravika

transmitido pela tradição; ouvido através da revelação ou ensinamento

Apara-vairāgya

desapego inferior; desapego ordinário

Asamprajñāta-samādhi

absorção sem conteúdo cognitivo distinto

Bhagavad Gītā

é um texto filosófico e espiritual da tradição indiana, inserido no épico Mahābhārata.

Buddhi

intelecto; faculdade discriminativa

Citta

mente; campo mental

Dharma-megha-samādhi

é o estado mais elevado de samádhi (sem semente), conduzindo à libertação (kaivalya)

Dṛṣṭa

visto; observado; experimentado directamente

Guṇa

qualidade constitutiva da natureza

Kaivalya

isolamento; independência absoluta da consciência

Khyāti

conhecimento directo; discernimento verdadeiro

Manas

mente sensorial; faculdade de coordenação das percepções

Para-vairāgya

desapego supremo

Prakṛti

natureza primordial; matriz da manifestação

Prakṛtilaya

seres que atingiram um estado de absorção nos princípios da natureza (Prakṛti), mas que ainda não alcançaram a libertação plena (kaivalya).

Puruṣa

consciência pura; sujeito consciente

Puruṣa-khyāti

conhecimento directo de Puruṣa

Rajas

actividade; dinamismo

Saṁjñā

designação; denominação

Samādhi

absorção meditativa

Sattva

luminosidade; clareza; equilíbrio

Sāṃkhya

sistema teórico especulativo

Tamas

inércia; obscuridade

Tat

esse; aquele

Vaśīkāra

domínio; autocontrolo; mestria

Vācaspati Miśra

comentador clássico do Yoga e do Sāṃkhya

Vairāgya

desapego; despaixão

Vairāgyam

desapego

Vaitṛṣṇya

ausência de desejo; libertação da sede

Videha

seres cuja consciência já não está identificada com um corpo físico comum.

Vitṛṣṇasya

daquele que está livre do desejo

Viṣaya

objecto; objecto de experiência

Vyāsa

comentador clássico do Yoga Sūtra

Yoga

disciplina

Yoga Sūtra

Aforismos do Yoga

O que distingue o vairāgya do verso 15 do vairāgya do verso 16?

No verso 15, o desapego refere-se à ausência de desejo pelos objetos da experiência.

No verso 16, surge uma forma mais elevada de desapego denominada para-vairāgya, o desapego supremo.

Neste caso, a própria atração pelas manifestações de prakṛti deixa de existir.

Trata-se de uma transformação muito mais profunda, que resulta do discernimento claro da diferença entre consciência e natureza.

O que é prakṛti no contexto do verso 16?

Prakṛti é a natureza primordial, a fonte de todos os fenómenos manifestados.

Segundo o sistema Sāṃkhya, dela emergem a mente, os sentidos, o corpo e todo o universo experienciável.

Tudo aquilo que pode ser conhecido, pensado, sentido ou percebido pertence ao domínio de prakṛti.

O desapego supremo surge quando o praticante reconhece claramente que a consciência observadora não pertence a esse domínio.

O desapego supremo corresponde à libertação final?

Não exatamente.

O desapego supremo é um sinal muito avançado do desenvolvimento espiritual, mas ainda faz parte do processo.

Ele prepara o terreno para o discernimento contínuo entre puruṣa e prakṛti.

Quando esse discernimento se torna completo e irreversível, ocorre kaivalya, a libertação descrita no último capítulo do Yoga Sūtra.

Assim, para-vairāgya é uma condição extremamente elevada que conduz à libertação, mas não é ainda a libertação final em si mesma.